Ecomuseu Morro da Queimada: história, trilhas e memória nas encostas de Ouro Preto

Ecomuseu Morro da Queimada: história, trilhas e memória nas encostas de Ouro Preto

Ecomuseu Morro da Queimada: história, trilhas e memória nas encostas de Ouro Preto

No alto da Serra de Ouro Preto, onde o vento toca as pedras antigas e o horizonte se abre até o Itacolomi, o Morro da Queimada se destaca como registro histórico de outras épocas. O que hoje chamamos de Ecomuseu Morro da Queimada, é um conjunto de ruínas, uma trilha com vista privilegiada e também um território que guarda a memória do primeiro grande assentamento urbano da região, o Arraial do Ouro Podre. Ele foi arrasado pela força da mineração e destruído pelo fogo do Conde de Assumar.

O Arraial do Ouro Podre nasceu no final do século XVII, quando os primeiros bandeirantes alcançaram as encostas ricas em ouro e iniciaram as lavras nos altos da serra. Era um mundo feito de becos estreitos, casas simples, currais de pedra, minas a céu aberto e serviços inteiros dedicados à extração do metal. No início do século XVIII, a técnica do talho aberto ampliou as possibilidades de exploração. A população cresceu, ergueu capelas, abriu caminhos, formou comércio, desse movimento intenso surgiram lugares como as capelas de São João, Santana, Piedade e São Sebastião, testemunhas silenciosas de uma urbanização que avançava entre morros e encostas.

A virada mais dramática dessa história veio em 1720, com a Revolta de Vila Rica. A revolta, motivada pela cobrança do quinto e pela instalação das Casas de Fundição, mobilizou milhares de moradores das Minas. Entre eles estava Pascoal da Silva Guimarães, dono das terras e figura influente da região. Quando o movimento foi reprimido, o Conde de Assumar ordenou queimar as casas dos revoltosos e demolir o arraial. O incêndio consumiu parte das construções, mas não apagou a ocupação humana nem o sentido profundo daquele espaço, que continuou habitado pelos séculos seguintes. O nome Morro da Queimada veio desse episódio, mas o lugar seguiu vivo, carregando camadas de memória que resistiram até hoje.

Ao longo dos séculos XVIII e XIX, e também na movimentação urbana do século XX, o morro voltou a receber moradores que ergueram casas sobre antigas estruturas de pedra. Havia pouco planejamento e muita necessidade. Em alguns casos, ruínas coloniais viraram base para novas edificações. Mesmo assim, grandes galerias, bocas de mina, mundéus, sarilhos e trechos de sistemas hidráulicos permaneceram visíveis. São marcas de uma mineração que moldou o Brasil Colônia e deixou ali um dos sítios arqueológicos mais ricos do período, uma espécie de arquivo aberto sobre técnicas, modos de vida e tensões sociais daquele tempo.

Nos anos 2000, cresceu a urgência de preservar o território de forma responsável. Em 2008 teve início o projeto de implantação do Parque Arqueológico do Morro da Queimada, resultado de parcerias entre IPHAN, Fiocruz, UFOP, Prefeitura de Ouro Preto, instituições estaduais, organizações comunitárias e moradores da região. A ideia era proteger as ruínas, ordenar o uso público, estruturar pesquisas e criar condições para que a visitação acontecesse sem ameaçar o patrimônio. Ao mesmo tempo, surgia o Ecomuseu da Serra de Ouro Preto, pensado para valorizar a relação direta entre comunidade e território, reconhecendo que a memória também se faz de pessoas, e não só de objetos arqueológicos.

Hoje, o Ecomuseu Morro da Queimada é uma unidade de conservação municipal aberta ao céu, onde o visitante caminha entre ruínas, trilhas, minas antigas e paisagens que ligam o presente a uma época anterior à própria fundação de Ouro Preto. A vista para o Pico do Itacolomi, marco dos bandeirantes e símbolo da cidade, atravessa o percurso. Muitos procuram o morro para trilhas, ciclismo, corridas ou simples contemplação. É um lugar que convida ao silêncio e à percepção do território. É também um ponto permanente de estudo para escolas, universidades e projetos de educação patrimonial.

A visita normalmente parte da Capela de São João, uma das mais antigas de Ouro Preto, localizada ao lado do Bar do Baú. Guias especializados conduzem percursos que duram cerca de quatro horas, cruzando trilhas que ligam os morros de Santana e São Sebastião. Pelo caminho aparecem minas abandonadas, muros, resquícios de estruturas hidráulicas e histórias que ajudam a entender a formação geológica, política e social daquele pedaço de serra. Vale a pena conhecer!

Vista do Ecomuseu Morro da Queimada

ecomuseu morro da queimada